Excerpt for O Cavaleiro da Torre Inclinada by José Leon Machado, available in its entirety at Smashwords

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O Cavaleiro da Torre Inclinada



Cenas da vida académica


romance


José Leon Machado



Edições Vercial





Naturatus amor nature legibus orbem

Subdit, et vnanimes concitat esse feras:

Huius enim mundi Princeps amor esse videtur,

Cuius eget diues, pauper et omnis ope.

Sunt in agone pares amor et fortuna, que cecas

Plebis ad insidias vertit vterque rotas.

Est amor egra salus, vexata quies, pius error,

Bellica pax, vulnus dulce, suaue malum.


John Gower, Confessio Amantis



Amor è que' che mi guida e conduce,

nell'opera la qual a scriver vegno;

Amor e que' ch'a far questo m'induce,

e che la forza mi dona e lo 'ngegno;

Amor è que' ch'è mia scorta e mia luce,

e che di lui trattar m'ha farto degno;

Amor è que' che mi sforza ch'i' dica

un'amorosa storia molto antica.



Boccaccio, Ninfale Fiesolano






O livro de Teologia Moral


Como tema de tese de doutoramento, fora sugerido ao Dr. Licínio, assistente do Departamento de Sociologia na Universidade D. Dinis, a história do adultério desde a Idade Média até à actualidade. Quando começou a fazer a revisão bibliográfica do tema, deparou-se com uma obra na biblioteca da universidade que, embora não fosse da área da Sociologia, lhe interessou de imediato: O Adultério na Literatura Portuguesa do Século XVIII. O autor, Marco T. Ferreira, docente de Ciências da Cultura na mesma universidade, publicara-a alguns anos antes e, segundo informação na terceira página, era a sua tese de doutoramento. O Licínio leu-a com agrado e ali colheu muitas informações acerca daquela prática que pensou utilizar.

Durante a leitura, encontrou uma citação mais ou menos extensa que lhe despertou a curiosidade. Em nota de rodapé, o autor do estudo apresentava a referência bibliográfica: R. P. Thomae Tamburini, Theologia Moralis, Veneza, 1748, volume I, De Praeceptis Decalogi, página 176 (exemplar consultado na Biblioteca do Seminário Diocesano). Na citação se resumia a posição oficial da Igreja na época acerca das práticas adulterinas. A questão interessava-lhe particularmente e tomou nota da referência, agendando uma visita à biblioteca do seminário para tentar descobrir a obra e, se possível, algo mais que lá dissesse.

O bibliotecário, um tipo com aspecto de sacristão, sentado numa cadeira conventual, os pés ternamente poisados sobre uma pilha de números antigos do Osservatore Romano, atendeu-o com má vontade. Não gostou de lhe terem interrompido a sesta que costumava tirar depois do almoço. Como a obra que o assistente pretendia consultar era antiga, levantou-se contrariado e guiou-o por uma escada em caracol até à cave, onde se encontravam depositados os cartapácios que já não interessavam a ninguém.

A estante de Teologia Moral estava carregada de grossos e pesados tomos com o mesmo título, mas de diferentes autores. Havia a Theologia Moralis de Anacleto Reiffenstuel publicada em 1724 num volume; a de Afonso Maria de Ligório de 1762 em três volumes; a de Hermann Busenbaum de 1747-1753 em dois volumes; a de Nicolai Mazzotta de 1781 em cinco volumes; e a de Tommaso Tamburini em três volumes. O Licínio retirou o volume I do Tamburini e poisou-o, por sugestão do bibliotecário, numa das mesas de leitura próximas, fazendo levantar uma ligeira nuvem de pó. Seguindo a referência, foi folheando o tomo e, quando chegou à página que lhe interessava, verificou que estava colada à seguinte.

O bibliotecário aproximou-se para verificar o problema e, quando o assistente viu que ele ia tentar descolá-las à bruta, disse-lhe para ter cuidado, ou ainda danificava o livro. Aquele, um tanto enfadado – Que importância tinha um rasgão num livro que já ninguém lia e que só estava ali a ocupar espaço? –, procurou no bolso do casaco um canivete e passou-o ao assistente. Este, com o maior cuidado possível, descolou as folhas e os estragos foram reduzidos.

– Há gente que não tem respeito nenhum pelos livros – comentou. – Onde já se viu deixar cair cola num livro como este!

– Se é que é cola – retorquiu o bibliotecário.

– A mim parece-me cola.

– Também pode ser gordura. Ou muco do nariz. Mas pela textura da mancha e pela maneira como está espalhada, talvez não seja nada disso. Sabe o que me parece? Esperma.

– Esperma?

– Não me admiraria nada que algum seminarista se lembrasse de vir aqui bater uma pívia.

– É um pouco forte o que está a dizer.

– Acha? Pois então o doutor ainda não viu nada. Eu trabalho aqui vai para seis anos e tenho de lidar com esses bárbaros. Estão no seminário porque querem ser padres... Quando devolvem um livro requisitado, nem se pode olhar para ele. Arrancam as páginas, rasgam, dobram, riscam, sublinham e até chegam a desenhar porcalhices. Tratam melhor os sapatos. É o que o doutor diz: Há gente que não tem respeito nenhum pelos livros.

– Pelo menos lêem-nos.

– Ah, isso já não sei. É assunto que não me diz respeito. Eu limito-mo a fazer o controlo dos livros que saem e verificar se são entregues dentro do prazo.

O Licínio debruçou-se sobre o Tamburini e, com a ponta do canivete, raspou um pouco da mancha. Esta desfez-se em pó branco.

– Se isto é esperma – considerou –, porque é que alguém haveria de o deitar nas páginas de um livro? Não tem lógica nenhuma.

– E não precisa de ter. Cá para mim, o safado do seminarista responsável por isso fê-lo para escarnecer das coisas santas.

– E porque haveria de escolher esta obra? Deve haver muitas bíblias na biblioteca em que podia dar azo ao escárnio de uma forma mais eficaz.

– Talvez a obra estivesse aí à mão de semear.

O assistente não estava muito convencido. Tanto mais que os seminaristas, em princípio, não consultavam livros antigos como aquele. Devia haver outra explicação. Raspou mais alguns pedaços da mancha e deitou o pó branco numa caixinha que usava para guardar os comprimidos para o colesterol. Antes, porém, tomou o único comprimido que lá havia. Depois confirmou a citação, transcreveu mais algumas passagens sobre o adultério e abandonou a biblioteca agradecendo ao bibliotecário a ajuda.

No dia seguinte, passou no laboratório de Genética da universidade e pediu a uma colega com quem tinha alguma confiança que, quando tivesse disponibilidade, fizesse uma análise ao pó. Precisava de saber o que era e há quanto tempo fora produzido. Já que a tecnologia permitia com alguma facilidade desvendar pequenos mistérios, porque não servir-se dela para descobrir o que realmente se passou com as páginas daquele livro de Teologia Moral? Não ganhava nada com isso e de pouco lhe serviria para a sua investigação sociológica.

Daí a uma semana, recebeu um email da colega a dizer-lhe que o pó era uma estranha mistura de papel com esperma humano cristalizado. O esperma era de homem branco, entre os trinta e os quarenta anos, e fora produzido há pelo menos oito anos atrás. O papel tinha mais de duzentos anos. Como os dados eram díspares, ela repetira a análise. Foi confirmada inequivocamente a composição do pó.

Sentado à frente do computador, o Licínio pensou que, se o esperma tinha pelo menos oito anos, era provável que o seu proprietário fosse o autor de O Adultério na Literatura Portuguesa do Século XVIII, que consultou a obra por essa altura. Assim sendo, poderia descartar a ideia de um seminarista lúbrico ter ido esconder-se na cave da biblioteca, um sítio bastante tranquilo mas pouco adequado para bater uma punheta.

Uma pergunta de imediato se lhe colocou: Caso tenha sido realmente o autor do estudo o responsável pela mancha, por que razão haveria de derramar sobre o livro o próprio esperma? Delineou algumas hipóteses: O investigador excitara-se ao ler o capítulo sobre o adultério, masturbou-se e, inadvertidamente, conspurcou o livro de Teologia Moral. Era uma hipótese estapafúrdia, sabia-o bem. Não estava a ver um investigador sério como o Professor Marco T. Ferreira a friccionar o pénis numa biblioteca e a ejacular para cima de um livro. Os investigadores não fazem isso. Quando lhes vem a vontade, ou aguentam estoicamente até que passe, ou usam a casa-de-banho mais próxima. Ele próprio já se vira numa situação semelhante quando foi fazer uma pesquisa à Biblioteca Nacional. Na mesa ao lado, estava uma boazona que lhe fez subir a temperatura a tal ponto que teve de ir aliviar-se. Eram coisas naturais, que podiam acontecer a qualquer um. Mas fazer isso dentro da biblioteca, rodeado de estantes e para cima de um livro, tocava as raias do anormal. É verdade que um homem podia excitar-se com um livro que está a ler ou uma revista erótica e há até quem se sirva disso para, quer na sanita, quer confortavelmente deitado na cama, praticar o vício solitário. Mas um indivíduo que se excitava com um livro de Teologia Moral só podia ser um tarado.

Talvez, considerou, tenha sido um acidente. A polução pode ocorrer em qualquer altura e só damos por ela quando descobrimos que temos as cuecas molhadas. O Professor Marco T. Ferreira poderia estar a ler o livro, ou a copiar uma passagem, enquanto imaginava os peitos de uma colega que vira a passar no corredor da universidade, fantasiando em seguida uma cena tórrida.

Não, seria demasiado inverosímil. Pensou noutra hipótese, esta com mais fundamento: E se a colega, em vez de ser fruto da imaginação, estivesse ali com ele a auxiliá-lo na consulta bibliográfica? Então aí o quadro seria totalmente diverso. Os dois, não tanto excitados por causa do conteúdo do livro, mas por se encontrarem sozinhos, num ímpeto impossível de conter, lançaram-se nos braços um do outro e deram asas à líbido. O livro, pelo seu tamanho avantajado e pela macieza das páginas, podia ter servido de colchão. Quando o clímax se aproximou, ele retraiu-se e ejaculou fora do vaso, derramando a semente sobre o livro. Esta hipótese era, pensava, a mais plausível. Talvez pudesse utilizá-la para o seu estudo sociológico. Todo o cenário parecia indiciar um flagrante caso de adultério. Os esposos legítimos não fazem, por regra, sexo em lugares tão extravagantes.

Quando começou a ler as passagens em Latim que tinha copiado da obra do Tamburini, constatou que tinha de arranjar alguém para lhas traduzir. No estudo do Professor Marco T. Ferreira, a passagem estava em Português. Talvez ele o pudesse ajudar. Decidiu enviar-lhe uma mensagem a pedir-lhe um encontro. Este respondeu-lhe quase em seguida, a dizer que teria todo o gosto em recebê-lo. Como os gabinetes de ambos ficavam no mesmo corredor do edifício, o Licínio foi bater à porta do colega, que de imediato o mandou entrar.

O assistente falou-lhe da sua investigação sociológica acerca do adultério e confessou que o estudo que o professor publicara estava a ser-lhe muito útil para o contexto do século XVIII. Uma das informações que lhe devia era a referência à Theologia Moralis de Tommaso Tamburini. Consultou a obra e encontrou mais algumas passagens que iria utilizar, mas precisava de arranjar alguém que lhas traduzisse correctamente.

– Conheço uma pessoa que pode ajudá-lo – informou o professor. – É a Dr.ª Natividade Pires. Foi ela que me traduziu a passagem que eu cito no meu estudo.

– E como posso contactá-la? Trabalha aqui?

– Infelizmente não. Foi minha colega de mestrado, há alguns anos atrás, e é professora numa escola secundária. Se quiser, dou-lhe o número de telefone. Pode dizer-lhe que foi por meu intermédio que o conseguiu. É uma pessoa muito solícita.

– Agradeço-lhe imenso.

Falaram mais alguns minutos acerca do adultério na sociedade do século XVIII e o seu impacto nas normativas que a Igreja se esforçou por publicar, para tentar reduzir essa calamidade que resultava num aumento exponencial do número de enjeitados e filhos ilegítimos.

Quando telefonou, a professora prontificou-se de imediato a colaborar na tradução. Marcaram encontro num café do centro da cidade e o assistente levou a cópia manuscrita que fizera das passagens do livro de Teologia Moral. Enquanto ela as lia, o Licínio constatou que, apesar de um pouco mais velha do que ele, era uma mulher bonita e bem torneada.

– Isto – disse a Natividade – não deve estar bem. Há aqui certas desinências que violam a gramática. Tem a certeza de que copiou o texto tal e qual como estava no original?

– Acho que sim. Mas como os meus conhecimentos de Latim são quase nulos, é bem provável que me tenha enganado nalguma coisa.

– Pois é. Assim, não consigo traduzir o texto como deve ser. Tem de me trazer o original.

– Será difícil.

– E não pode arranjar uma fotocópia?

– Mais difícil ainda.

– Então não sei como poderei ajudá-lo.

– Eu não quero ser maçador e não desejo tirar-lhe demasiado o seu tempo. Mas talvez consigamos resolver o problema se a Dr.ª Natividade se deslocasse comigo à biblioteca do seminário. O livro é antigo e a consulta tem de ser lá.

– Se é a única forma que temos de o fazer, pois seja.

Marcaram o dia e a hora e apareceram na biblioteca do seminário. O bibliotecário lá os guiou à cave e, porque estava na hora do lanche, deixou-os sozinhos. Não se recordava de alguma vez alguém ter roubado um livro. As pessoas podiam-se esquecer de o devolver, perdê-lo ou estragá-lo. Mas nunca o roubariam.

O Licínio retirou da estante o volume I da Theologia Moralis e abriu-o sobre a mesa. A seu lado, ouviu este comentário:

– É curioso. Eu já consultei este livro, ou um parecido, com outra pessoa.

– Ah, sim? E quem era? – perguntou o assistente com interesse.

– O Professor Marco Túlio Ferreira.

– E que aconteceu?

– Oh, são coisas muito íntimas. Não quero melindrá-lo.

– Melindrar-me? Acha que eu nesta idade ainda me melindro com alguma coisa?

– Que idade tem? Trinta e um?

– Trinta e dois. A Dr.ª Natividade não é muito mais velha do que eu.

– Bastante mais.

– Pois não parece.

– Ah, muito obrigado. Mas comigo não precisa de mentir.

– Estou a ser sincero. E então? Não me vai contar o que aconteceu?

– Você já deve saber alguma coisa...

– O pouco que sei é que a doutora ajudou o Professor Marco Túlio Ferreira a traduzir uma passagem em Latim deste livro.

– E a si porque lhe interessa exactamente este?

– Por causa do adultério. Como sabe, é o tema do meu estudo.

O Licínio voltou-se para o livro e folheou-o até encontrar a página manchada, sem conseguir disfarçar o incómodo que sentia por estar ali com a mais que provável ex-amante do Professor Marco Túlio Ferreira.

– O que me tem feito dar voltas à cabeça – explicou fixando-se na página 176 – é a descoberta desta mancha.

E apontou para o livro.

– Parece gordura ressequida – aventou ela aproximando a vista.

– Tem alguma explicação para a sua presença aqui?

– Não, nenhuma.

Ela afastou-se alguns centímetros e sentou-se na borda da mesa, os braços cruzados, a avaliar as intenções do assistente.

– Que pretende de mim, Dr. Licínio?

O assistente ficou atrapalhado.

– Que me ajude a traduzir o texto – respondeu laconicamente.

– Mas porquê o seu interesse por essa mancha?

– Nenhum em particular. Achei estranha a sua presença num livro antigo e pensei que a doutora talvez tivesse alguma explicação para ela, uma vez que o consultou antes de mim.

Ela suspirou e disse:

– Como poderia tê-la? Não acha que estamos a perder tempo a falar de uma coisa tão sem importância? Daqui a pouco o bibliotecário vem dizer-nos que são horas de fechar e ainda não copiei o texto.

– Tem toda a razão.

O assistente assinalou-lhe as passagens a copiar e afastou-se um pouco a ver as lombadas de outros livros. A doutora, enquanto as transcrevia, na sua caligrafia redonda e certinha, foi-se perdendo em recordações.

Ela e o Marco Túlio Ferreira foram colegas de mestrado. A amizade entre ambos cimentara-se quando tiveram de fazer alguns trabalhos em grupo. Eram uma boa equipa. Ele escrevia bem e tinha uma grande bagagem cultural; ela era perspicaz, desenrascada, dominava os programas informáticos e sabia Latim. Depois do mestrado, continuaram amigos. O Ferreira foi convidado a ir trabalhar para a universidade e teve de fazer o doutoramento. A cada passo, pedia-lhe ajuda, sobretudo na tradução de textos latinos.

Um dia, ele precisou de fazer uma consulta acerca do adultério numa obra que se encontrava na biblioteca do seminário e pediu-lhe que o acompanhasse. O bibliotecário, que na altura era outro indivíduo, deixou-os à vontade. Ficaram sozinhos, rodeados daquelas estantes empenadas ao peso dos livros velhos. O Ferreira procurou numa das estantes o volume I da Theologia Moralis do Tamburini e, ali naquela mesa, foram lendo a letra miúda em duas colunas. Depois de encontrarem as passagens que ele pretendia, a Natividade ofereceu-se para as copiar.

A Natividade tinha um fraquinho pelo colega. Durante o curso de mestrado, alimentara uma vaga esperança. Sabia que seria difícil, pois era casado e não iria deixar a esposa para ficar consigo. Além do mais, também ela era casada. Na altura, sentia-se carente. O marido, sempre ocupado em viagens de negócios, quase nunca estava. Não era propriamente paixão o que sentia pelo Ferreira. Ninguém se apaixona por um homem a quem só interessavam os livros. Nesse aspecto, não era muito diferente do marido. Mas pelo menos estava perto.

Enquanto copiava o texto, o Ferreira afastara-se para ver se descobria algo mais que lhe interessasse nas estantes. Ela apercebeu-se de que era observada. Estava de pé, debruçada sobre o livro. Sabia que ele lhe admirava as pernas e a curvatura das ancas. Devia estar a viver um dilema: atirar-se à colega, ali toda oferecida, e ser fiel à esposa. Era difícil, sobretudo em situações como aquela. A Natividade, enquanto escrevia, saracoteava-se, como se estivesse a balançar-se ao ritmo de uma música que só ela ouvia.

Para se distrair e dissipar o dilema, o Ferreira retirou um volume de sermões da estante e foi sentar-se numa outra mesa.

– Sabes o que diz o texto? – perguntou a Natividade voltando-se. – Que, se um dos esposos não cumprir aquilo a que está obrigado, o outro tem o direito de ir demandá-lo fora do casamento e quem peca é quem se negou.

– Muito curioso.

– E tu, cumpres a tua obrigação para com a tua esposa?

– Sempre que posso.

– Não é sempre que podes. É sempre que ela to exige.

– Ela nunca mo exige. E quando sou eu a exigir, desculpa-se com o cansaço ou uma dor de cabeça.

– Então é ela que está em falta. Desta passagem eu entendo o seguinte: Se duas pessoas descontentes com os seus cônjuges se encontram e cumprem de boa vontade e com gosto o que a natureza lhes pede, não há violação de nenhum preceito moral.

– Talvez essa interpretação seja um pouco abusiva. Isto porque a Igreja condena o ajuntamento carnal que não tenha como fim a procriação. O que referiste entra certamente nas condições atenuantes. Mas aí deve haver referência também às condições agravantes. O acto é muito mais grave se for praticado a uma sexta-feira, a um domingo ou dia santo, se os parceiros não forem casados, se a mulher está em período menstrual, se o homem verte a semente no vaso impróprio, na boca dela ou sobre a terra, ou se ela usa os dedos em si própria.

– E tu que achas de tudo isso?

– Acho um absurdo. A Igreja sempre tentou controlar a vida dos fiéis e, com estas regras, pensava que o fazia. Eu creio que não passa de letra morta. As pessoas, em suas casas, fechadas nos seus quartos e debaixo das mantas, faziam o que lhes apetecia.

– Realmente essa obsessão de querer controlar a vida dos outros nos pormenores mais íntimos é um disparate. Sabes o que me apetecia? Vingar-me de todas essas regras que os clérigos se esforçaram por compilar.

– E como poderias tu vingar-te?

– Com a tua colaboração.

O Ferreira levantou-se da cadeira, abandonou o livro que tinha aberto e aproximou-se. A Natividade colocou-lhe os braços sobre os ombros, encostou as pontas dos seios à sua camisa e começou a beijá-lo. Ele ficou por momentos sem reagir. Vendo, contudo, o sorriso matreiro e os olhos doces que o observavam enquanto os seus lábios eram esmagados pelos dela, começou a corresponder. Beijaram-se longamente, as línguas enrolando-se, e deixaram-se cair sobre o enorme livro aberto que lhes serviu de colchão.

A Natividade, deitada sobre as páginas que esmiuçavam o pecado do adultério, deixou que ele lhe desapertasse a blusa e lhe afastasse o sutiã para poder beijar-lhe os seios. Entretanto, ela soergueu-se, desapertou-lhe as calças, puxou-lhe as cuecas para os pés e começou a sugar-lhe o pénis. Um pouco mais tarde, despiu as calcinhas, arregaçou a saia, voltou a deitar-se sobre o livro e pediu-lhe que a possuísse. Enquanto brincava com os próprios mamilos, a Natividade balançava ao ritmo das investidas do colega, que estava de tal forma concentrado no que fazia que se esquecera completamente do lugar onde se encontravam: na biblioteca de uma instituição religiosa onde não estavam permitidos actos daquela natureza.

– Por favor – pediu ela num murmúrio, depois de atingir o orgasmo várias vezes – tem cuidado.

– Sim – disse ele – não te preocupes.

Com o suor a escorrer-lhe pela testa, o Ferreira ia e vinha, as pernas da colega, que ele segurava nas mãos, bem abertas e erguidas no ar, como se lhe estivesse a oferecer a entrada para o inferno. Aumentou o ritmo, que ela incentivava com gemidos e palavras de ordem. Dois segundos antes do estremeção final, sacou fora e ejaculou abundantemente sobre as páginas do livro.

Ficaram abraçados a ofegar, ele de pé, com o tronco dobrado sobre o ventre da colega, ela com os pés à volta das suas costas.

– Obrigado – sussurrou a Natividade. – Foi o melhor pecado que cometi desde há muito tempo.

Ergueram-se por fim e recompuseram-se. O livro, ainda aberto, tinha uma mancha húmida e gordurosa. Ela retirou um lenço de papel da bolsinha para a limpar, mas ele impediu-a.

– Deixa estar. Podes deteriorar a tinta da página. Há-de secar naturalmente.

O Ferreira fechou o livro e devolveu-o à estante.

– Está a ter alguma dificuldade? – ouviu de súbito uma voz a seu lado.

Era o Licínio que a despertava da viagem ao passado.

– Não, não – disse ela um pouco atrapalhada. – Estava a perguntar-me se, na frase que transcrevo, o autor não terá omitido o verbo.

Retomou a cópia e o assistente foi dar uma olhada noutra estante. Postou-se de tal modo que podia admirar em pleno a doutora debruçada sobre as páginas do cartapácio, os peitos abonados a roçarem as letras negras e as ancas balançando ao som da música que só ela escutava. Ficou excitado, mas seria incapaz de dar um passo, não fosse ela ofender-se e dar-lhe um sopapo. Além disso, temia a entrada do bibliotecário. Mas era grande a tentação de a abraçar por detrás. A oportunidade passou. Ela soergueu-se, informou que já tinha feito a cópia e fechou o caderno.



Construções sintácticas


I


No início do mês de Junho, o campus universitário revestia-se de cor e de amor. Os prados e os jardins cobriam-se de flores e os animais, desde o mais pequeno insecto até ao mamífero mais avantajado, fosse ele racional ou irracional, dedicavam-se aos doces jogos do afecto e da reprodução. Sob as árvores que se adornavam de flores, parzinhos de estudantes entregavam-se a risos e meiguices, enquanto as vespas, as abelhas, as borboletas, as moscas, as joaninhas e outros dípteros, himenópteros e coleópteros, em santa paz e convivência, voavam de flor em flor sobre as suas cabeças.

Dulce Nara Cagliari da Silva, professora de Sintaxe da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, ficou agradavelmente surpreendida quando o táxi que a transportava penetrou no campus em direcção ao auditório onde se realizaria a sessão de abertura do IV Congresso Internacional de Linguística Aplicada. Alguém lhe dissera que em Portugal havia pedras, pó e mar. Afinal também havia árvores e flores.

Era a primeira vez que vinha a Portugal. Já tinha estado por duas vezes em Itália, a terra dos seus avós maternos, e era uma vergonha que nunca tivesse visitado a terra dos seus avós paternos e, mais importante do que isso, o berço da língua que ela falava, ensinava e estudava.

Tinha chegado no dia anterior à tarde ao aeroporto Francisco Sá Carneiro. Conheceu duas colegas brasileiras, uma da Universidade de São Paulo e outra da Universidade do Rio de Janeiro, na fila para o Serviço de Estrangeiros. O funcionário olhou para o passaporte, leu a palavra Brasil e entregou-lho em seguida com um grande sorriso dizendo:

– Seja bem-vinda a Portugal.

A Dulce ficou admirada com o tratamento. Sabia que os portugueses eram simpáticos, mas não estava à espera que um funcionário da polícia também o fosse, ainda para mais num serviço tão problemático como era o de controlo das entradas de estrangeiros no país. Há uns meses atrás tinha ido a Nova Iorque e, depois de ser revistada e apalpada várias vezes, foi obrigada a esperar mais de uma hora na fila para mostrar o passaporte e responder a uma série de perguntas sobre imigração.

As três brasileiras, já muito amigas por saberem que iam para o mesmo congresso, fizeram juntas a viagem de autocarro até Braga. Infelizmente, não tinham a reserva no mesmo hotel e foram obrigadas a separar-se.

No dia seguinte à chegada, a Professora Dulce Nara confirmou no secretariado do congresso a inscrição, levantou a documentação e dirigiu-se ao auditório para assistir à sessão de abertura e às primeiras conferências. De início, custava-lhe a perceber o que ouvia. Estava pouco familiarizada com a fonética e algumas construções sintácticas do Português Europeu. Os portugueses fechavam demasiado as vogais e era um problema conseguir perceber o que diziam. A colocação dos pronomes clíticos depois dos verbos também só atrapalhava a compreensão.

À hora do almoço, um membro da organização informou os senhores congressistas de que poderiam comer no restaurante da universidade a um preço acessível. Desse modo evitava-se que perdessem tempo à procura de um fora do campus e chegassem atrasados à sessão da tarde.

Na confusão da saída, a professora Dulce Nara perdeu-se das colegas brasileiras e foi andando em direcção ao restaurante, seguindo um grupo de outros congressistas que ela não conhecia nem fez questão de conhecer. Eram sobretudo senhoras que, face ao aspecto, deviam estar no fim da carreira e, pela conversa, pertenciam à seita chomskyana, altar onde ela não sacrificava. Uma das senhoras tinha apresentado nessa manhã uma comunicação sobre a tipologia e distribuição das categorias vazias servindo-se prolixamente da esclerosada e discutível teoria da regência e ligação de Chomsky. Defendia o pai espiritual do generativismo como uma fiel de Alá defendia, de Corão na mão, o pai do islamismo, tendo preso à volta da barriga um cinto de explosivos pronto a fazer rebentar, caso houvesse alguém que não concordasse com ela.

No restaurante, encontrou as colegas brasileiras. Estavam na fila do bufete com o prato na mão. Chamaram-na e ela, que deveria ser a última, aproximou-se e juntou-se às colegas, o que fez uma senhora dizer:

– O fim da fila é lá atrás.

– Desculpa, viu? Nossa colega se perdeu e nós queremos comer juntas – explicou uma das brasileiras que se chamava Gabriela, mas não era nada cravo e canela.

A da fila não teve mais que dizer e meteu a viola ao saco para não voltar a passar por descortês.

Nos dois primeiros dias do congresso, a Dulce assistiu às comunicações da sua área e trocou impressões e informações com os colegas que lhe pareceram interessantes. Mas depressa se fartou de tudo aquilo. No segundo dia à tarde, depois de fazer a sua apresentação, abandonou o campus muito enfadada e foi para o hotel. Uma colega portuguesa, na altura do debate, pôs em causa a sua metodologia de análise por não ter em conta alguns dos pressupostos chomskyanos que, no seu entender, eram a única forma possível de fundamentar cientificamente um estudo linguístico. Ela não quis argumentar com uma prosélita do deus da Sintaxe e nem se deu ao trabalho de responder-lhe. Detestava fanatismos pseudo-científicos.

O terceiro dia do congresso tinha-o reservado para um passeio com um amigo português, com quem mantinha amizade pela Internet. Há alguns anos que conversavam por email, trocavam livros e pequenas lembranças, mas não se conheciam pessoalmente.

Ela tinha lido na Internet um artigo sobre a ida para o Brasil da biblioteca do Rei D. João VI, quando fugia das tropas napoleónicas em 1807 e do impacto que isso teve do desenvolvimento cultural da colónia. O assunto interessava-lhe, pois um professor do mestrado pedira-lhe um trabalho sobre o estado da Língua Portuguesa no Brasil na primeira metade do século XIX. A Dulce descobriu o contacto electrónico do autor e enviou-lhe uma mensagem a perguntar se tinha mais alguns ensaios acerca do tema. Ele teve a amabilidade de lhe responder e foi assim que iniciaram a amizade, constante mas longínqua.

Ambos conheciam relativamente bem a vida um do outro. Marco Túlio Ferreira sabia que a amiga era casada e que tinha dois filhos ainda pequenos. Sabia também que ela estava em processo de divórcio porque o marido andara a enganá-la. Desconhecia, no entanto, os pormenores, pois a Dulce escusava-se a dar-lhos. Ela, por sua vez, sabia que o amigo português era casado e também tinha um filho. Suspeitava, por pequenos apartes, que a vida do casal tinha altos e baixos, mas nunca se atreveu a questioná-lo sobre isso.

Como o Ferreira não era da Linguística, não se inscreveu no congresso. No entanto, a Dulce informara-o da sua vinda. Ele disse-lhe que o mês de Junho era péssimo, pois tinha muitos afazeres: exames a dar e a corrigir, trabalhos para ler e avaliar, pautas para preencher, comunicações e artigos a redigir. Prometeu no entanto, oferecer-lhe um dos seus dias, para se conhecerem pessoalmente e levá-la de passeio.

Combinou aparecer no hotel às dez para a apanhar, mas no dia anterior foi convocado para uma reunião e teve de enviar uma mensagem a informar que só chegaria às treze.

A Dulce queria fazer-lhe uma surpresa. Em vez de irem almoçar a um restaurante, como ele havia sugerido, lembrou-se de preparar um piquenique. Foi a um supermercado e comprou pão integral, fruta, doces, amendoins salgados e água. Pouco antes da hora combinada, pensou voltar ao supermercado para comprar uma garrafa de vinho branco fresco e um pouco de queijo.


O Ferreira conseguiu despachar-se mais cedo e estacionou o BMW à entrada do hotel três quartos de hora antes. Dirigiu-se à recepção e perguntou ao funcionário se a Professora Dulce Nara da Silva estava. O funcionário telefonou para o quarto, aguardou alguns segundos e informou que ninguém atendia. Se saiu, não entregara a chave.

Agradeceu, foi para junto do carro e pegou no telemóvel para lhe ligar. Quando procurava o número, ouviu uma voz a seu lado.

– Sr. professor?

– Dulce! – exclamou.

Ela tinha o cabelo longo aos caracóis e envergava um vestido muito fino que lhe realçava as linhas do corpo. O que mais o impressionou foi o ar cândido e quase infantil.

– Finalmente estou perante a Marquesa do Vale Frondoso!

– E eu – disse ela sorrindo – perante o Cavaleiro da Torre Imponente.

Os epítetos surgiram em conversas de Internet acerca da paixão de ambos pela Idade Média, época de damas, cavaleiros, muitas mesuras e pouco recato.

– Como está o meu querido cavaleiro?

– Alegre como um pardal por ver em carne e osso a bela marquesa.

– Pertence ao código de honra da cavalaria não mentir.

– Jamais o faria sobre tão delicado assunto.

Ambos riram e abraçaram-se.

Depois dos festejos iniciais, o Ferreira tomou as rédeas e disse:

– Talvez devêssemos comer primeiro. Poderíamos ir a um restaurante aqui perto.

– Se me permite, eu gostaria de propor algo especial: um piquenique. Que lhe parece?

– É uma boa ideia. Mas para isso teremos de ir às compras.

– Já fui. Só falta o vinho e talvez um pouco de queijo. Quer acompanhar-me?

Foram ao supermercado do outro lado da rua. De uma geladeira, retiraram uma garrafa de Alvarinho e na secção de charcutaria pediram um quarto de queijo de cabra. Na fila para a caixa registadora, mantiveram-se em silêncio. Um homem português na companhia de uma brasileira causava sempre surpresa e era motivo de agastamento por parte do público feminino. No dia anterior, a Dulce tivera um diálogo esclarecedor com a empregada da caixa que a atendeu. Percebendo que a cliente era brasileira, perguntou-lhe se ia ficar muito tempo em Portugal. Ela informou-a de que estava de passagem. A outra mostrou-se muito aliviada. Talvez temesse pelo marido.

Voltaram ao hotel com o queijo e o vinho num saco plástico e subiram ao quarto para recolher o resto do farnel. A Dulce tinha comprado uma cestinha de verga para dar um ar de graça e o português, quando a viu a abarrotar de pão, doces e fruta, ficou impressionado.

A ideia seria passarem a tarde nos arredores de Braga. O Ferreira organizara um percurso: subiriam à Falperra, depois ao Sameiro e ao Bom Jesus e desceriam até Tibães, terminando a visita em São Frutuoso. Como a amiga já conhecia o centro histórico da cidade, seria redundante incluí-lo no percurso. A Falperra era um bom local para fazerem o piquenique.

Dirigiram-se ao carro com tudo o necessário e o Ferreira desceu a Avenida da Liberdade, voltou à esquerda junto ao Parque de São João da Ponte, passou Santo Adrião, depois Fraião e começou a subir o monte da Falperra. Ao chegar à curva apertada junto aos fornos, meteu à direita por um caminho estreito e parou junto à capela de Santa Marta das Cortiças. A Dulce ficou extasiada com a paisagem sobre o vale do Cávado.

– O que é aquilo? – perguntou apontando um edifício de cúpula branca no cimo de um monte para o lado esquerdo.

– É o santuário do Sameiro – explicou o Ferreira. – É um lugar muito procurado para fazer casamentos.

– Tu casaste ali?

– Não. Casei na paróquia da Ângela, em Montalegre.

– Montalegre?

– É uma vila transmontana a uma hora daqui.

Dirigiram-se para a capela. A Dulce abriu a bolsa que levava e retirou um véu que colocou na cabeça. Aproximou-se da porta gradeada e fez as suas orações à santa. O Ferreira afastou-se com a cesta em direcção a uma mesa de pedra que se encontrava à sombra de um sobreiro. Lembrou-se de súbito que precisava do saca-rolhas e foi ao carro procurá-lo.

Terminadas as orações, os dois amigos sentaram-se à mesa e começaram a comer. O português verificou com algum desconsolo que o vinho tinha perdido um pouco da frescura. Havia apenas um copo de plástico esbeiçado e foi por ele que ambos beberam. Depois de comerem o pão com queijo e algumas ameixas, partilharam, bago a bago, o cacho de uvas.

A Dulce pediu licença para tirar os sapatos e as meias e colocou os pés no banco de pedra. Eram pequenos e as unhas estavam salpicadas de pintas azuis e vermelhas. O dedo mindinho parecia minúsculo.

Estava uma tarde de sol e no céu moviam-se alguns farrapos de nuvens. Uma pequena brisa soprava de oeste, refrescando um pouco o ambiente.

Quando o cacho ficou apenas com um bago, o Ferreira atirou com ele dizendo:

– Este é para a santa.

A Dulce olhou para a árvore que lhes fazia sombra e perguntou por que razão a casca em baixo era lisa e castanha e em cima grossa, enrugada e de cor cinza. O Ferreira explicou-lhe que tinham retirado a cortiça da parte de baixo.

– Então esta é a árvore da cortiça?

– Sim, a matéria-prima com que se fazem as rolhas. Esta rolha, por exemplo.

E apontou a rolha da garrafa de Alvarinho enfiada no gargalo para não deixar sair o gás.

Ela descobriu um prego espetado no tronco e tentou retirá-lo.

– Pobrezinha! Deve estar sofrendo.

O Ferreira ergueu-se para ajudar.

– Está demasiado fundo – disse.

Rodou as costas e o pescoço e acrescentou:

– O banco dá-me cabo dos ossos. E se fôssemos dar uma volta?

A Dulce caminhou descalça, sem se importar com o pó e as pedras do chão. Sentaram-se num muro coberto de líquenes, do lado oposto, a apreciar a paisagem virada a sul.

– Se parece muito a Belo Horizonte. O verde, as casas, a temperatura... É uma paisagem inspiradora, sr. cavaleiro. Muito obrigada por me trazer aqui.

Voltaram à mesa do piquenique. A Dulce tirou da bolsa um pequeno livro. Eram poemas de Cecília Meireles. Propôs um recital de poesia. Ela leria um poema em voz alta e ele leria outro. O Ferreira, na sua vez, abriu uma página ao calha e pôs-se a inventar:


No horizonte do teu cabelo

Vejo um mar de folhas verdes,

Os braços rugosos

Da árvore que nos cobre

Como as mãos da avó

Sobre a massa do pão

Numa tarde de sol.


– Eu me lembro desse poema aí – comentou ela entrando no jogo. – É muito bonito.

As horas foram passando e o Ferreira informou que, se queriam cumprir o percurso, começava a fazer-se tarde. Ela retorquiu:

– Se está tão bem aqui! Não quero ir embora, não.

Leu mais um poema da Cecília e comentou-o.

– Como pode ser tão profundo um poema, dizer em tão poucas palavras todo um universo de sentimentos e emoções?

Passava das dezoito quando decidiram abandonar o local. Ainda restava um pouco de vinho na garrafa.

– Queres beber mais um pouco?

– Não quero, não. Se o senhor não se importa, damos prá santa.

– Então vem comigo.

Aproximaram-se da capela e, diante da porta principal, o Ferreira encostou-se à amiga e despejou um pouco do vinho à volta deles até fazer meio círculo no chão. Depois entregou-lhe a garrafa e pediu que o completasse.

– Agora – disse ele em tom solene – estamos unidos para sempre. Isto não é um casamento. É muito mais importante. Entre nós, a decepção, a traição, o desdém e o ciúme jamais farão morada. É a aliança entre duas pedras mágicas que, quando longe uma da outra, moverão o céu e a terra para se reencontrarem e, quando juntas, serão uma só.

Ela ficou muito séria a olhá-lo, como se tivesse ouvido a coisa mais estranha da sua vida. Ficaram ambos emocionados com o ritual que no início, pelo menos na cabeça do português, não era mais do que uma brincadeira tola. Abraçaram-se e estiveram sem dizer nada o tempo que levou uma nuvem branca a juntar-se a outra.

Que significado tinha o ritual que acabaram de cumprir? Que impulso os levou a abraçarem-se, sabendo que, dentro de alguns dias, ela atravessaria o Atlântico em direcção a casa e passaria muito tempo até que voltassem a ver-se?

– Temos de ir – proferiu ele a meia voz.

A Dulce afastou-se vagarosamente, de olhar perdido no dele, e sorriu. Tinha um sorriso maroto de criança.

A Dulce procurou os sapatos e fez as orações de despedida à santa enquanto ele recolhia os restos do piquenique e os levava para o carro. Cobriu novamente a cabeça com o véu e, diante da porta gradeada, suplicou as bênçãos para si, para os filhos que ficaram no Brasil com a avó e para o amigo português.

O Ferreira conduziu o carro com muito cuidado para não derrapar. Havia buracos no caminho e as pedras soltas ressaltavam. Ao chegar à estrada de alcatrão, arrancou para o Sameiro. Parou por momentos junto à escadaria. A Dulce quis sair para apreciar as vistas. Deixou uma moeda num dos pequenos lagos em frente aos azulejos com cenas religiosas. Partiram em direcção ao Bom Jesus e aí pararam por quinze minutos. Fizeram uma visita rápida à igreja e observaram algumas das capelas da via-sacra. A brasileira achou tudo monumental, mas confessou ter gostado mais da simplicidade e pobreza da capelinha no cimo do monte.

Regressaram à cidade e, ao chegarem à Estação, o Ferreira virou à direita para São Jerónimo de Real. Já não havia tempo para ver o Mosteiro de Tibães, mas poderiam ainda visitar a capela visigótica de São Frutuoso.

No adro, passaram por um grupo de velhotes com smoking. Dentro da igreja, senhoras idosas de blusa creme e saia escura bichanavam orações. Talvez estivesse agendada uma cerimónia para o fim da tarde, sussurrou o Ferreira à amiga.

Acedia-se à capela visigótica por dentro da igreja paroquial. A Dulce colocou novamente o véu e rezou a São Frutuoso, uma imagem que destoava da arquitectura do lugar. A imagem tinha cem anos, quando muito, e a capela mil e quatrocentos. O Ferreira esperou encostado a uma das colunas de mármore.

Subiram depois ao coro da igreja onde os frades jerónimos, há quatrocentos anos atrás, rezavam as horas. A Dulce quis experimentar um dos cadeirões embutidos.

– Para que é isto? – perguntou apontando uma saliência de madeira no centro do assento.

– Isso era para os frades coçarem o rabo.

– Verdade?

– Não. Era para eles descansarem quando ficavam de pé nas cerimónias mais demoradas. Encostavam aí o rabo e, canonicamente, não estavam sentados, mas usufruíam do mesmo conforto.

– Frades espertinhos!

Quando regressaram ao adro, o número dos velhotes tinha aumentado. O Ferreira chegou-se a um deles e perguntou se ia haver alguma celebração. O homem explicou-lhe que pertenciam ao coro polifónico da paróquia. O maestro fazia anos e iam animar uma missa de acção de graças seguida de um jantar de confraternização.

– Se os senhores quiserem, também podem participar – rematou.

– Mas quê? Na missa ou no jantar?

– Na missa. Para o jantar terão de ter convite, acho eu.

– Pois então boa cantoria – desejou-lhe o Ferreira.

O velhote agradeceu e os dois amigos voltaram ao carro.

A Dulce pediu que a levasse ao hotel. Gostaria de tomar um duche antes de irem jantar.

– Se quiser, também pode tomar.

– Não me sinto propriamente sujo.

– Eu estou muito transpirada. O senhor pode ouvir música enquanto eu tomo um duche. Ou fazer outra coisa que lhe agrade.

– O quê, por exemplo?

– Não sei. Que poderá fazer um homem enquanto uma mulher toma banho?

– Pode fazer muitas coisas. Ouvir música, como sugeriste, é capaz de não ser suficiente para se entreter. Mas pode ver televisão, ler um livro, telefonar à esposa, telefonar à amante, olhar pela janela...

– Gostei da penúltima: telefonar à amante.

O Ferreira estacionou à frente do hotel. Levaram a cesta com os restos do piquenique para o quarto. A Dulce meteu-se na casa-de-banho, deixando o computador portátil a tocar jazz.

O amigo tirou os sapatos e estendeu-se na cama. Ouvia a água do chuveiro a correr. Que faria um homem normal naquelas circunstâncias? Batia à porta e perguntava se podia juntar-se ao banho? Para distrair tais pensamentos, pegou num livro que a Dulce tinha sobre a mesinha e pôs-se a folheá-lo. Era um manual de Sintaxe. Começou a sentir alguma sonolência e, sem dar conta, adormeceu.

A brasileira demorou o seu tempo a esfregar-se, a secar-se, a espalhar o óleo de buriti, a arranjar o cabelo, a retocar o rosto e a vestir-se. Quando, daí a pouco mais de meia hora, o Ferreira abriu os olhos e a viu sentada na beira da cama a observá-lo com um sorriso de troça, ficou embaraçado.

– Continue dormindo. Não tenho pressa.

– Desculpa. Não consigo resistir a uma cama mole, ao jazz e a um livro de Linguística. Para mim é como tomar um comprimido para o sono.

– Mas agora você não está ouvindo jazz, não. É música brasileira. É muito boa para dançar.

– Dançar? E tu danças?

– Sim, às vezes. Fiz um curso de dança brasileira. Gosto muito.

– Dança um pouco para mim.

– Ah, não! Eu não danço para quem está com aspecto sonolento. Cochile mais um pouquinho, se quiser. Eu espero.

– Não, não. Um cavaleiro não deve fazer uma dama esperar.

Levantou-se, sacudiu-se para endireitar as calças e a camisa engelhadas e disse que estava pronto. Ela levava um vestido comprido chegado ao corpo. Ao sair do hotel, o Ferreira teve vontade de lhe dar um beliscão na coxa, mas conteve-se. Um gentleman não fazia isso em público a uma senhora casada.

No restaurante, que ficava no Campo da Vinha, pediram carne grelhada e vinho verde tinto. Como o sabor do vinho era estranho ao paladar da brasileira, o português explicou-lhe que as uvas naquela região não amaduravam o suficiente e o vinho ficava com aquele sabor a verde. O garçon, enquanto os servia, ouviu a explicação e decidiu intervir:

– Não é nada disso! O vinho verde é assim porque as uvas não alcançam mais do que certo grau alcoólico. Não tem nada a ver com o serem verdes ou maduras. Elas podem amadurecer como noutra região qualquer, que isso em nada influencia o sabor do vinho.

O Ferreira não gostou que o tipo o viesse contradizer naqueles modos e decidiu, quando saísse, não lhe dar gorjeta.

O garçon afastou-se e os dois puderam retomar a conversa.

– O senhor se lembra de uma vez me contar que, se bebia vinho à noite, não podia se conter diante de uma mulher? – perguntou a Dulce.

– Sim, lembro.

– Então deve ter cuidado e beber pouco. Eu não quero ser molestada por um homem que não consegue controlar seus impulsos.

– Este vinho é muito leve. Não faz em mim qualquer efeito.

– Tem a certeza?

– Absoluta.

– Eu confio...

Passava das vinte e uma quando abandonaram o restaurante sem deixar gorjeta. A Dulce pendurou-se no braço do amigo e atravessaram o Campo da Vinha.

– Damos um passeio? – perguntou.

– Me leve ao hotel, vai. Não consigo andar muito tempo sobre estes sapatos que me torturam os pés.

– E porque os calçaste?

– Para me sentir um pouco mais alta.

– Só te levo ao hotel se prometeres dançar para mim.

– Está bem, eu danço para o senhor. Mas fica proibido de fazer comentários.

– E se fizer?

– Tem de pagar uma multa.

– Uma multa? E de quanto vai ser?

– Deixe eu pensar: Se abrir a boca enquanto eu danço, vai ter de fazer uma massagem nos meus pés.

– É um preço justo. Como não gosto de mexer nos pés de ninguém, está o problema resolvido.

Entraram no hotel e, enquanto esperavam o elevador, o recepcionista olhou-os com desconfiança. Já no quarto, ele recostou-se na cama e a Dulce meteu-se na casa-de-banho. Daí a pouco, apareceu envergando um sutiã próprio das bailarinas e uma saia com fiozinhos bordados e lantejoulas. Colocou sobre o único candeeiro aceso uma peça de roupa para diminuir a luminosidade e pôs o computador a tocar modinhas brasileiras. Concentrou-se e começou a dançar. O Ferreira, com as almofadas junto ao peito como um paxá, ia agitando a cabeça ao ritmo dos tambores e observando os gestos graciosos da amiga.

– Muito bem! – exclamou o Ferreira deleitado com a forma como ela sassaricava.

Três músicas depois, a Dulce deixou-se cair sobre a cama, a transpirar.

– Há muito tempo que não danço – confessou ela. – Estou muito destreinada.

– Dançaste bem. És uma grande bailarina. Onde aprendeste?

– Tirei um curso, como lhe contei. E depois praticava muito em casa.

– Danças para o teu marido?

– Ele não aprecia. Eu dançava sozinha, para mim mesma. Ou nalguma festa, para os amigos. Mas o senhor faltou à promessa: Falou enquanto eu dançava. E agora como vai ser? Tem de pagar a multa.

– Eu peço imensa desculpa. Foi um comentário que me saiu sem pensar, num momento de entusiasmo.

– Não, não. O senhor prometeu. Ou quer que eu pense que é um cobarde?

– Está bem. Eu pago a multa – disse o Ferreira com fingida contrariedade.

– Acho que vou tomar um duche primeiro. Estou transpirando.

– Não me parece que estejas a transpirar dos pés.

A Dulce estava voltada de barriga para baixo. O amigo pegou-lhe num pé e começou a massajar-lhe os dedos. Ela não protestou e deixou-se estar quietinha, a sentir-lhe as mãos suaves. O Ferreira achou por bem estender a massagem à barriga da perna. Depois aproximou-se das costas. Estavam suadas do esforço da dança, mas ele não se importou. Os dedos assim escorregavam melhor. Pediu licença para desapertar o sutiã e ouviu um murmúrio como resposta. Voltou às pernas e pediu que se voltasse. A amiga estava sem sutiã e teve de cobrir os seios com as mãos cruzadas. Ele fingiu ignorar e foi subindo a massagem até aos joelhos. Aí a Dulce voltou-se de novo e ele regressou aos pés. Quando subiu outra vez, puxou um pouco a saia para cima e verificou com algum assombro que não levava calcinhas. Ela reagiu instintivamente, puxando a saia para baixo. O Ferreira pediu desculpa, não sabia. A amiga voltou-se novamente, deixando os seios bem visíveis, como dois frutos à espera de serem colhidos. Ele, ignorando-os, beijou-a na boca. O beijo foi longo e molhado.

A massagem estava terminada e, se não estava, de momento teria pouca importância. A Dulce rodou e ficou sobre o português. Desapertou-lhe as calças, arrancou-lhe as cuecas e começou a acariciar-lhe o pénis. Depois, sem tirar a saia, sentou-se sobre ele, esfregando o clítoris e penetrando-se.

– Tenho de ir – informou o Ferreira olhando o relógio de pulso uma hora depois. – Prometi estar em casa antes da meia-noite. Se não chegar, a Ângela começa a ficar preocupada.

– Telefone a ela dizendo que está um pouco atrasado.

– E o que lhe digo que estou a fazer?

– Diga que está num quarto de hotel com uma brasileira que dançou para o senhor...

– Isso seria uma boa maneira de, ao chegar a casa, ter as malas à porta.

– Eu não quero ser motivo de zanga doméstica. Por isso, sr. cavaleiro, se entende que é melhor ir, eu não insisto mais.

– Voltaremos a ver-nos daqui a alguns dias.

Tinham combinado, depois de ela ir passar uma semana a Lisboa para visitar alguns museus, deslocar-se à Universidade D. Dinis para dirigir um seminário de mestrado sobre construções sintácticas.

Antes de o deixar sair da cama, a sr.ª marquesa torturou-o mais um pouco. Na casa-de-banho, quando o Ferreira tomava um duche, massajou-lhe as costas enquanto a água escorria pelo corpo. Depois baixou-se um pouco e, só para despedir, sugou-lhe o pénis até ele se soltar num rugido de quase nada.

– Adeus, sr. Cavaleiro da Torre Imponente – disse-lhe ela à porta enrolada numa toalha.

– Agora sou mais o Cavaleiro da Torre Inclinada – contrapôs o Ferreira.

A Dulce riu-se e acrescentou:

– Muito obrigada pela companhia durante a tarde, pelo excelente jantar e pela massagem. Terá um dia de ir ao Brasil para eu poder compensá-lo.

– Foi um prazer conhecê-la. Eu é que agradeço a companhia e, sobretudo, a dança. Nem todos os homens têm esse privilégio.

– Pode crer que não.

Trocaram um último beijo e o Ferreira afastou-se em direcção ao elevador. Enquanto descia, respirou fundo. Eram amigos, que diabo!, não amantes. E ainda por cima ela era casada. Não poderia permitir-se cair de novo em tentação. Mas para que se metia ele em situações que só poderiam dar naquilo? Que haveria a Dulce de pensar?

Chegou a casa vinte minutos depois da meia-noite e a Ângela moeu-lhe a cabeça. Já na cama, pressentia em si um leve cheiro da amiga brasileira. Teria a esposa notado?


II


A Dulce Nara passou uma semana em Lisboa, em casa de uma colega que preparava o doutoramento na Universidade Nova e que a guiou por todos os lugares interessantes da capital e arredores. Foram a Sintra, a Queluz, a Cascais, a Belém, a Almada; visitaram a Gulbenkian, o Museu de Arte Antiga, o Museu dos Azulejos e o Parque das Nações. Assistiram a uma peça no Dona Maria e tiveram uma noite de fado numa tasca de Alfama. Mas o que mais encantou a Dulce foi o passeio pelas ruas e praças, o contacto com as pessoas, o tom bonito com que pronunciavam as palavras. Sem dar por isso, a semana havia terminado e ela viu-se num autocarro a caminho do Norte. Iria, tal como prometera, dirigir um seminário de mestrado sobre construções sintácticas aos alunos do Professor Marco Túlio Ferreira. Seria no sábado de manhã e ela partira na sexta-feira, pernoitando num hotel próximo da universidade.

Quando o Ferreira a foi buscar, dez minutos antes das nove, ela já se encontrava na recepção, vestida formalmente, a pasta com o míni-portável e outro material necessário na mão. O amigo, com um bouquet de rosas, mostrou-se muito satisfeito por voltar a vê-la e abraçou-a diante do porteiro. Depois de lhe oferecer o bouquet, convidou-a a entrar no carro.

– Muito obrigada – disse ela num tom grato e divertido.

Os alunos ainda não tinham chegado e os dois puderam preparar a sala de aula, conectando o computador ao projector e as colunas de som. Os alunos começaram a aparecer quinze minutos depois da hora marcada. Nada de anormal num país velho e trôpego.

O Ferreira sentou-se ao fundo da sala depois de apresentar a Professora Dulce Nara Cagliari da Silva, da Universidade Federal de Santa Catarina, especialista em Sintaxe. Como o seminário era de Cultura e Sociedade, eles não perceberam o que estava uma professora de Linguística ali a fazer. Mas calaram e ouviram.

A Dulce falou pouco mais de hora e meia, na sua voz pausada e melodiosa. Os alunos, a maioria docentes do ensino secundário, gostaram. O tema acabou por lhes interessar e poderia ser de grande utilidade no trabalho pedagógico.

Cinco minutos antes das onze, o Ferreira fez-lhe sinal, apontando o pulso com o relógio. Ela concluiu, agradecendo a atenção dos mestrandos. Depois de saírem, os dois professores desmontaram o material e desceram ao gabinete. O Ferreira ofereceu-lhe uma cadeira e sentou-se noutra. Ela quis saber a sua opinião acerca do seminário.

– Os alunos estiveram sempre atentos e participaram, o que significa que gostaram.

– E o senhor gostou?

– A Sintaxe não é a minha área, como sabes. Mas sim, gostei. Nada como aprender coisas novas.

– E que estava fazendo enquanto eu falava?

– Ouvia.

– O senhor não minta. Eu vi-o olhando o seu notebook.

– Oh, isso! Consultei o correio electrónico. Foram dois minutos.

– Dois minutos que esteve desatento e não escutou o que eu disse.

– A sr.ª professora há-de saber que ninguém consegue estar atento mais de uma hora seguida.

– Me desculpe, mas exijo uma compensação por essa desatenção de dois minutos.

– Peça o que quiser e ser-lhe-á concedido.

– Ora, me deixe pensar...

O Ferreira ergueu-se e chegou-se a ela para lhe ver os brincos. Tocou num deles com o indicador e disse:

– Tens uns brincos bonitos. Onde os compraste?

– Foi uma amiga que fez. Ela é artesã. Mas não mude de conversa, não. Quero a minha compensação.

O Ferreira sentou-se na secretária e disse:

– Prometo satisfazer todas as suas exigências. Prefere ficar aqui o resto da manhã a pensar nelas ou vamos dar um passeio? Gostaria de lhe mostrar a cidade.

– O passeio fica para depois. Temos de passar no hotel. Eu deixei minha bagagem lá.

– Então vamos buscá-la. Tens de entregar a chave do quarto até ao meio-dia.

– Eu falei na recepção e me disseram que podia entregar um pouco mais tarde.

– Óptimo. Como ainda é cedo para o almoço, talvez o passeio...

– Eu disse para o senhor que o passeio fica para depois. Agora vai me levar ao hotel, se não se importar.

Se era assim que a colega queria, lá teria as suas razões. A sua natural propensão para a concórdia não lhe permitia pô-las à discussão ou contrariá-las.

Na pequena viagem, ela confessou que passara a semana em Lisboa a pensar na Santa Marta das Cortiças, com aquela paisagem maravilhosa, o piquenique, a companhia do seu amigo português e o ritual que os uniu para sempre. O Ferreira concordou que fora uma tarde muito bem passada, descontraída e cheia de poesia.

Estacionou o carro no parque do hotel, a Dulce saiu e, como ficara sentado no lugar do condutor, ela perguntou:

– O senhor não vem?

– Quer ajuda com a bagagem?

– Talvez queira.

Ele saiu, trancou a viatura e subiu com ela. No elevador, atreveu-se a tocar mais uma vez nos brincos.

– São realmente bonitos.

– O senhor quer uns? Eu lhe mando do Brasil. Pode oferecer a sua esposa.

– Não me parece que ela goste desse tipo de brincos. O mais certo era atirar-me com eles à cabeça.

– Não fale assim. Cada mulher tem seus gostos. Há tantos modelos de brincos como pares de orelhas. O senhor sabia?

O Ferreira não sabia.

As últimas palavras acerca dos brincos foram pronunciadas à porta do quarto. No meio do corredor estava o carrinho da empregada da limpeza, carregado com toalhas, lençóis e detergentes. A empregada estava a arrumar o quarto do lado direito.

Os dois amigos entraram e a Dulce fechou a porta. O Ferreira chegou-se à janela.

– Tiveste sorte – comentou. – Puseram-te num quarto das traseiras. Além de ser mais sossegado, tem uma vista excelente.

– Sim, é verdade. Às vezes sou uma mulher de sorte – retorquiu a Dulce enquanto arrumava as últimas coisas na mala.

– Não te esqueças de nada – recomendou ele.

– Está tudo pronto.

– Então deixa que eu ajudo-te a carregar a mala.

– Mais devagar, sr. cavaleiro. O senhor ainda não me compensou.

O Ferreira perguntou-lhe, com um sorriso malicioso, como queria ser compensada. Ela, sem responder, aproximou-se, rodeou-o com os braços e, num sorriso maroto, beijou-o na boca. Depois começou a desapertar-lhe os botões da camisa enquanto lhe beijava o peito cabeludo. Como era má educação interromper, recuar ou dizer desculpa, mas não, o português ficou-se quieto, sem proferir palavra.

A Dulce baixou-se e, de joelhos, desapertou-lhe o cinto e a braguilha, desceu-lhe as calças até meio dos joelhos e desalojou das cuecas às bolinhas pretas um pénis que subitamente estava tão duro como uma corgete. Lambeu, chupou, mordiscou até ele ejacular. Ergueu-se, foi à casa-de-banho bochechar e voltou completamente nua. O Ferreira estendera-se na cama depois de se ter livrado das calças, das cuecas e da camisa. Ela deitou-se a seu lado e retomou as carícias ao pénis. Enquanto o fazia, o português foi-lhe admirando as curvas abonadas, os peitos vastos, a pele morena e sedosa, o cabelo comprido que lhe fazia cócegas nas coxas quando ela engoliu até à raiz o pénis que recuperava a força. A Dulce sentou-se sobre ele e deixou-se penetrar, soltando um suspiro fundo de prazer e de saudade.


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